Jeep in Alaska

De São Paulo ao Alasca, a bordo de um Jeep


A incrível história do adolescente que em 1955, aos 19 anos, foi e voltou do Alasca para viver seu sonho

30 de abril de 2017 - Em março de 1954, com apenas 18 anos de idade, Hugo Vidal recebeu a informação de que o encontro mundial de escoteiros, o Jamboree Mundial, seria realizado pela primeira vez fora da Europa. Mais precisamente no longínquo Niagara-on-the-lake, Canadá. Junto com outros dois adolescentes recém-habilitados como motoristas, Charles Downey e Jan Stekly, também escoteiros, o jovem Hugo tomou uma decisão tipicamente impulsiva: ir até lá, dirigindo!

Hugo e seus amigos nem sequer tinham carro, mas – apesar dos previsíveis protestos das famílias – não abriram mão do sonho, que colocaram em prática no ano seguinte, após meses de planejamento e ajudas inesperadas. Até lá, o objetivo ficou ainda mais pretensioso: chegar até o Alasca. E, claro, com o único veículo capaz de encarar tamanho desafio: um Jeep.

Aos 81 anos e com o mesmo olhar vívido de 1955, sr. Hugo Vidal foi um dos maiores destaques do Jeep Day promovido pela FCA em 2017, quando sentou-se em um exemplar idêntico ao CJ-3B de sua histórica viagem e nos contou detalhes saborosos de sua aventura, que você pode ver no vídeo mas adiante. Agora, aos 82, ele acaba de lançar um livro sobre a aventura, que você pode conferir e comprar no site da editora Overlander.

O trio partiu de São Paulo até o Alasca a bordo de um carro gentilmente emprestado pela Agromotor, com total apoio da Willys, que usou sua própria linha de montagem em São Paulo para trocar metade das peças por componentes brasileiros. Veio daí boa parte do patrocínio, já que a indústria nacional tinha todo interesse em mostrar ao mundo (e ao próprio consumidor local) a capacidade brasileira. Pintado de verde e amarelo e repleto de nomes de apoiadores, o CJ-3B foi e voltou são e salvo, tendo atravessado 19 países e incríveis 73 mil quilômetros em todos os tipos de terreno durante um ano, 12 dias e 11 pneus de aventura.

“De fato, a variedade de terrenos foi bem ampla, desde deserto escaldante, lamaçais, planície de sal, pedregulho congelado tremendamente escorregadio e bastante off road. O que mais testou nossos limites foi a areia fofa e o barro profundo, mas o Jeep 4x4 sempre se saiu bem”, conta Vidal, que tem saudades de seu grande companheiro mecânico: “O carro original se perdeu no mistério dos tempos”, lamenta. “Levo os dados dele sempre no meu bolso, mas nunca apareceu. Até agora...”, ele sorri, dando uma piscadela.

Vidal não sabe precisar quando começou sua paixão por carros. “Acho que veio no sangue”, ele diz. “Eu não perdia a chance de manobrar os carros de clientes na pequena oficina do meu pai. Eu não devia ter nem 10 anos! Já o Jeep foi uma paixão à primeira vista, e para sempre. O primeiro que eu vi foi logo após o fim da Segunda Guerra, no litoral, subindo uma imensa duna de areia fofa... Nunca esqueci a cena!”, lembra. “Comparando aqueles modelos da década de 1950 com os atuais, muito mudou em conforto, segurança, eletrônica etc., mas a garra característica da Jeep continua a mesma.”

Para sua viagem mais célebre, além de terem trocado metade das peças originais pelas nacionais, eles também fizeram modificações no carro especialmente para a viagem. Foram construídas, por exemplo, uma nova capota, inteiramente feita de metal, e uma extensão para a parte traseira. “O principal complemento foi a capota de aço, para abrigar-nos da intempérie. Como não tinha forração interna, o isolamento térmico era muito relativo. No frio, com a chapa em contato direto com até 40°C negativos, a parte interna do carro ficava como a parede revestida de gelo de um freezer”, conta Vidal. Nos momentos de maior necessidade, o trio usou o jeitinho brasileiro: “Regulamos carburador à noite em grande altitude até durante chuva e neblina e, na falta de graxa, chegamos a montar jumelos de molas com margarina”, ri.

Histórias como essas, Hugo tem às centenas. “Toda vez que nos sentamos para relembrar, uma história puxa a outra e vira um sem-fim de lembranças. Por isso estou finalmente escrevendo o livro que já me foi cobrado muitas vezes”, anuncia, já aproveitando para citar mais alguns casos: “Sobrevivemos a uma capotada na Nicarágua: num desvio de uma estrada em construção, passamos pela ponte provisória e rolamos barranco abaixo. O Jeep deu a cambalhota inteira e parou sobre as 4 rodas, quase intacto, só com algumas pequenas cicatrizes na capota, rapidamente arrumadas. Prova da ‘raça’ daquela máquina perfeita!”, orgulha-se, antes de continuar. “No trajeto, socorremos caminhões atolados também, tanto em zonas tropicais como no gelo do Alasca, aliando a solidariedade humana à valentia do Jeep e resultando na admiração dos socorridos e na sensação de dever cumprido para nós. A nossa relação com o Jeep, além de absoluta confiabilidade, sempre teve uma forte conotação afetiva; afinal, ele foi nossa casa e nossa vida.”

Artigo de notícias vintage sobre a aventura de Hugo Vidal

A ousada aventura marcou aqueles garotos com uma sensação que se repetia a cada despertar. “Aquela incógnita de começar cada dia sem saber onde e como terminaria perdurou durante todo o trajeto. Era sempre muito motivadora a atração pelo desconhecido, que tinha até um toque de mistério”, conta Hugo, animado. “Quando chegamos à fronteira do Alasca, não acreditávamos. ‘Sou eu mesmo aqui?’. E, de volta ao Brasil, foi crescendo nossa expectativa de reta final, que culminou com as recepções que tivemos no Rio e em São Paulo. Dentro do nosso vastíssimo álbum de publicações em jornais de todo o percurso, guardo com especial carinho uma da primeira página de um jornal carioca ilustrando um fraternal abraço no meu reencontro com minha mãe e irmã”, orgulha-se (foto ao lado).

Perguntado sobre o que mudou no Hugo Vidal que retornou da aventura em relação àquele que saíra um ano antes, ele continua: “As nossas vidas definitivamente tiveram esse divisor de águas: antes e depois da Operação Abacaxi [a aventura foi batizada de “Operation Pineapple”, em referência a todas as dificuldades a serem vencidas]. Para mim foi uma confirmação de algo que supunha, mas não tinha experimentado na prática: sonhar é um ingrediente indispensável para uma vida feliz, mas, com determinação e planejamento, o sonho não se perde no espaço, mas acontece de fato. Tento manter isso como princípio. Infelizmente, meus dois companheiros tiveram destinos que interromperam prematuramente suas aventuras, mas concordariam plenamente comigo”, diz. Os dois faleceram jovens e repentinamente, mas, além da saudade, deixaram também muitas histórias, que Hugo tem prazer em relembrar. Dos três, Jan é o único nascido no Brasil, em Niterói. Charles veio da Inglaterra com um ano de idade e naturalizou-se brasileiro. Hugo veio “com oito ou nove anos”, de Montevidéu, Uruguai. “Meu passaporte ainda é de lá, mas somos todos muito brasileiros. Especialmente o Jeep, que era verde-amarelo”, sorri. Quando voltou da viagem, Hugo aproveitou a recém adquirida experiência e abriu uma empresa de acessórios para Jeep chamados “roda livre”, que fabricou e comercializou no Brasil e também exportou.

Perguntamos que carro Vidal escolheria se tivesse 19 anos hoje e fosse fazer a mesma viagem. “Honestamente, acho que escolheria um modelo atual do mesmo Jeep”, responde, rapidamente. “A propósito, quando no início do sonho não tínhamos nem carro nem dinheiro e surgiu um emprestado, a nossa reação foi ‘mas que sorte!’ O carro oferecido era justamente o que a gente teria escolhido se nos tivessem perguntado!”

Por fim, pedimos a Hugo Vidal que compartilhasse suas dicas para as pessoas que queiram se aventurar como ele. “A principal é: dê o primeiro passo!! Planeje, organize o possível, mas não demais. Sempre há desculpas para esperar mais um pouco. Reflita sobre sua vida e defina suas prioridades. E boa viagem!”, finaliza.

Confira abaixo uma galeria com fotos históricas que Hugo Vidal gentilmente compartilhou conosco.


Texto: Daniel Schneider

Fotos: Divulgação

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