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Uma experiência multissensorial do design italiano


Casa Fiat de Cultura realiza exposição inédita e imersiva unindo arte e design, fascínio por carros e muita memória afetiva

16 de agosto de 2019 - O que um carro, uma escultura e um sofá têm em comum? Bom, pode ser muita coisa! Se o carro for uma Ferrari Testarossa (1988), a escultura for Formas Únicas de Continuidade no Espaço (1913), do futurista Umberto Boccioni, e o sofá for Bocca, peça criada em forma de lábios pelo Studio 65 para Gufram no ano de 1970, eles têm em comum o fascinante design italiano, com sua essência visionária.

É sob esse arco estético que nasce a exposição “Beleza em Movimento – Ícones do Design Italiano na Casa Fiat de Cultura”, com acervo de mais de 100 peças, entre automóveis, obras de arte, objetos e instalações multimídia. Inédita, a mostra é uma das grandes exposições sobre a temática e está aberta ao público gratuitamente desde 13 de agosto até 3 de novembro deste ano, em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, que a Fiat escolheu, há 43 anos, para fincar raízes no Brasil.

A exposição da Casa Fiat de Cultura tem curadoria do diretor do Design Center da FCA para a América Latina, o alemão Peter Fassbender, com a colaboração da arquiteta e historiadora italiana Maddalena D’Alfonso. “A Itália ocupa, até hoje, um lugar proeminente, conjugando tecnologia de vanguarda e design rigoroso”, comenta Maddalena. A relação afetiva de Fassbender com as peças ajuda a criar um universo coerente e sensível para a mostra. “O que estamos olhando na exposição é parte da minha vida. Eu fui da Alemanha para a Itália por amor ao design italiano, para conhecer os grandes mestres e aprender com eles”, conta Peter, que passou doze anos trabalhando por lá. Foi nesse período que ele intensificou sua admiração pelos cinco ícones do design de automóveis que estão em destaque na exposição: casas italianas que pautaram novas estéticas entre as décadas de 1910 e 1960. São elas: Bertone, Touring Superleggera, Pininfarina, GFG Style e Zagato.


A Carrozzeria Bertone, por exemplo, é representada na mostra por um Alfa Romeo Montreal (1971), projetado por Marcello Gandini, e uma Lamborghini Miura (1969); contando com outros objetos de design, como a luminária Arco (1962), criada por Achille e Pier Giacomo Castiglioni. No espaço dedicado à Carrozzeria Touring Superleggera, uma Alfa Romeo Disco Volante (2013) e uma Lamborghini 400 GT (1969) dividem as atenções com o puff em formato de grama Pratone (1971), um híbrido entre design e obra de arte decorativa concebido pelos italianos Giorgio Ceretti, Pietro Derossi e Riccardo Rosso. Quem poderia imaginar que em uma mesma galeria, a dedicada à Carrozzeria Pininfarina, que teve seu estilo consagrado após a Segunda Guerra Mundial, uma Ferrari Dino GT 246 (1974) seria exibida em conjunto com uma máquina de escrever Olivetti Valentine (1968), conhecida como “a portátil vermelha”? A mistura se justifica: “a exposição é muito rica, para refletir não somente sobre os carros, mas sobre o ambiente da Itália em épocas marcantes do design no século XX, como eram a cidade, a arquitetura, a arte, os filmes”, comenta Fassbender.

Com tantos estímulos, a mostra trabalha com uma proposta multissensorial, que se relaciona muito com a arte de criar carros. “O design vai além da beleza que você vê. No processo de criação, a gente trabalha com argila, toca nos modelos, nas superfícies, continuamente. Um carro é feito com as mãos”, comenta Peter. E, se na exposição não é possível tocar nas peças, outros sentidos são provocados, como o da audição. Uma das instalações presentes na mostra cria uma experiência imersiva nos roncos de motores de automóveis clássicos: um som sentido por todo o corpo e não apenas ouvido, provocando a adrenalina da alta velocidade. Quem se aventurar a fechar os olhos pode ter a sensação de ser transportado para outro lugar, já que o som evoca uma presença física das obras de arte sobre quatro rodas. O espaço reproduz o som das Ferrari 355, F40, F12tdf, 360 Challenge Stradale e F50; e também dos Alfa Romeo 8C, 155 V6, 4C, Montreal V8 e Tipo 33 Stradale.


Além da audição, até mesmo o olfato pode ser aguçado na exposição. O famoso “cheiro de carro novo”, aroma preferido de quem tem paixão por automóveis, pode ser sentido no Fiat Fastback, carro conceito que é um híbrido entre SUV, sedan e coupé projetado pelo Design Center Latam. Mas as galerias da Casa Fiat de Cultura, pela primeira vez inteiramente ocupadas por uma única mostra, trazem principalmente cheiros que contam longas trajetórias. “Quando eu cheguei perto da Giulia (Alfa Romeo Giulia Spider, de 1964) aqui na exposição, pude sentir o cheiro de um carro histórico”, comenta Peter, com entusiasmo e respeito pelo modelo. Ele brinca que não se trata de um cheiro de carro velho, é muito mais do que isso.

Outras experiências que despertam memórias, muitas vezes da infância, estão presentes na mostra. Quem ama miniaturas de carros — o próprio Fassbender faz parte desse grupo — vai se perder na sala com mais de 70 modelos expostos, celebrando o colecionismo com invenções em uma espécie de linha do tempo do design automotivo, que vai de 1906 a 2017. Entre as relíquias, estão: Fiat 24CV (1906), Alfa Romeo 8C 2300 (1933), Fiat 500 (1957), Ferrari 250 GTO (1962), Lamborghini Countach (1973), Fiat Uno (1983), Ferrari F40 (1987), Fiat 500 (2008), LaFerrari (2013) e Maserati Levante (2017). Em outro espaço, é possível assistir a inesquecíveis duelos da Fórmula 1, como o GP da França de 1988, em que Ayrton Senna e Alain Prost disputam com garra a liderança em uma sequência emocionante.


Até quem é fã de ficção científica encontra o que admirar na exposição. “Especialmente quem cresceu na década de 1980, como eu, ficou com o DeLorean eternizado no imaginário por conta dos filmes da trilogia De Volta Para o Futuro. E acredito que poucas pessoas não tenham assistido a ao menos um deles”, comenta Fernão Silveira, presidente da Casa Fiat de Cultura, sobre o modelo de 1982 consagrado pela sétima arte e presente na exposição, no espaço dedicado à Carrozzeria GFG Style. “Também no cinema italiano, os carros são personagens dos filmes, e trouxemos isso, em produções que vão de 1940 a 1970, o corte histórico com o qual a gente brinca”, emenda Fernão, que não era uma criança aficcionada por automóveis (e, sim, por futebol!), mas viu essa relação se transformar ao longo do tempo. A seleção traz algumas passagens de filmes marcantes como La Dolce Vita, de Federico Fellini, lançado em 1960 e ambientado em Roma.

“É um ano especial para nós. Estamos comemorando 120 anos de fundação da Fiat e cinco da presença da Casa Fiat de Cultura no Circuito Cultural da Praça da Liberdade, no Palácio dos Despachos de Minas Gerais, um prédio tombado e histórico”, comenta Fernão. Ele lembra que a exposição anterior, “São Francisco na Arte de Mestres Italianos”, terminou o ano de 2018 como uma das cem mais visitadas no mundo inteiro. “Esperamos quebrar esse recorde em 2019 com ‘Beleza em Movimento’. Estamos oferecendo uma experiência riquíssima de imagens, sons, cheiros. É uma exposição de muita sensibilidade e inteligência, compatível com a nossa história”, finaliza.


Texto: Bárbara Caldeira

Fotos: Divulgação

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