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"As coisas dão certo quando a gente gosta de fazer. E eu gosto muito do que eu faço."


Em Pernambuco, produtos como o barro, a madeira e a palha se transformam em arte e têm reconhecimento internacional

04 de julho de 2019 - Quando tinha apenas 8 anos, o pernambucano Zé Alves de Olinda, hoje com 66, saía com seu pequeno canivete pelo meio da mata do bairro onde morava, na cidade do Recife (PE, Brasil), esculpindo troncos de árvores que encontrava pelo caminho. “Fazia bonecos em galhos secos, janelas abrindo ou fechadas”, lembra. Ele não imaginava que a madeira ainda seria sua grande aliada para o artesanato, hoje seu ofício há 35 anos. É com criatividade, paciência e talento que, nas mãos de artesãos como Zé Alves, matérias-primas como madeira, fibra vegetal, barro e palha deixam de ser apenas insumos para se tornarem verdadeiras obras de arte disfarçadas de esculturas, bordados, rendas, cerâmica e cestaria.

Patrimônio cultural do estado, o artesanato em Pernambuco é uma manifestação artística geralmente passada de geração em geração. As peças contam histórias de vida, refletem a cultura e, principalmente, mantêm viva a identidade local do artesanato. Para enaltecer essa vocação pernambucana, há 20 anos acontece no estado a Fenearte (Feira Nacional de Negócios do Artesanato). O objetivo é valorizar e difundir os saberes tradicionais, estimulando o crescimento dos artesãos e artesãs que expõem e comercializam suas peças no evento.

Considerada a maior feira de artesanato da América Latina, este ano a Fenearte tem o apoio da Jeep, que dá continuidade à relação de aproximação com a cultura de Pernambuco, onde está localizado o Polo Automotivo Jeep. "Na Fenearte, identificamos o potencial de geração de trabalho e renda a partir do talento pernambucano. Apoiar a feira é valorizar as pessoas que fazem essa cultura popular", diz Antonio Filosa, presidente da FCA para a América Latina.

Zé Alves de Olinda descobriu seu talento como artesão ainda criança e, há 35 anos, trabalha confeccionando artesanato

Realizada entre os dias 3 e 14 de julho, a Fenearte reúne este ano 5 mil expositores, entre artesãos, artesãs e mestres, que ocuparão 800 estandes - três quartos dos quais são para artistas pernambucanos. No caldeirão criativo que é a feira, também é possível assistir a desfiles de moda e palestras voltadas para os saberes populares, visitar salões de arte e mostras de decoração. Além disso, também é possível conhecer o artesanato de diversas partes do mundo, uma vez que a feira terá participação de artistas de 21 países, dentre eles Indonésia, Senegal, Austrália, Argentina, República Tcheca, Peru, Tunísia, Uruguai, Portugal, Serra Leoa, Egito, Polinésia Francesa e Quênia.

Com o tema “Ciranda de todas as artes”, a feira tem como grande homenageada este ano a Ciranda (expressão popular em que, de mãos dadas, um grupo forma uma grande roda para cantar e dançar), nas figuras de precursores do ritmo no estado: Mestre Baracho (falecido em 1988), Dona Duda e Lia de Itamaracá, que tem o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

A Fenearte atrai mais de 300 mil visitantes e movimenta cerca de R$ 40 milhões por edição

É a partir da madeira louro-canela escurecida, aliada ao esmalte sintético e ao arame, que Zé Alves de Olinda dá forma às suas esculturas com forte influência africana, como navios negreiros, cataventos, sacis-pererês, índios e guerreiros tribais; todas nas cores preta e vermelha, sua marca registrada. A inspiração veio através da arte de Nhô Caboclo, um índio Fulni-ô do município de Águas Belas, interior de Pernambuco, com quem começou a trabalhar aos 17 anos, quando fora chamado para integrar a galeria Nega Fulô Artes e Ofício. “Nhô Caboclo foi meu mestre e, tudo o que tenho hoje, devo a ele. Se não fosse sua inspiração, eu não teria seguido meu dom como artesão”, homenageia.

Por dia, Zé Alves de Olinda conta que confecciona cerca de 100 bonecos de madeira. Embora eles possam parecer similares, o trabalho, ele conta, não é, nem de longe, instintivo. “Meu trabalho é de criatividade. Tem que imaginar e pensar muito para poder criar”, diz. Participante da Fenearte desde a primeira edição, ele conta que a feira é de extrema importância tanto para a divulgação do seu trabalho quanto para seu sustento, uma vez que ele sobrevive da arte. “A feira leva o artesanato de Pernambuco para o mundo e é muito importante para o meu trabalho, que foi levado para longe”.

O “longe” a que ele se refere são países como Portugal, México, França e Suíça, onde o artesão já expôs suas peças. Hoje reconhecido internacionalmente, Zé Alves de Olinda continua seu ofício e também perpetua o saber popular ao ajudar na formação artística de crianças e adolescentes de comunidades e escolas. “Ao repassar meu conhecimento para eles, eu estou transmitindo nossa cultura, nossa história”, conta. O orgulho, ele diz, não cabe no peito. “Eu nunca pensei que ia chegar aonde cheguei. Me sinto honrado por ter nascido com o dom do artesanato”, sorri.

Zé Alves de Olinda se inspira em seu mestre, o índio Nhô Caboclo, com quem trabalhou na juventude

A coordenadora da feira, Márcia Souto, pontua que, mais do que uma forma de divulgação do artesanato, a Fenearte marca uma mudança na vida do artesão de Pernambuco. “A feira passou a ser uma forma de essa arte circular no mundo todo. Mas, além disso, ela muda a realidade econômica de algumas regiões, principalmente dos profissionais que atuam nesse ofício”, afirma, destacando que a feira movimenta cerca de R$ 40 milhões por edição. “Muitas vezes, a comercialização das peças na feira acaba sendo o sustento do ano todo para o artista”, comenta.

Para ela, o apoio da Jeep revela o reconhecimento do maior valor do povo de Pernambuco: a cultura. “Ao apoiar a Fenearte, a empresa aproxima seus valores dos nossos e isso significa muito, porque mostra que a Jeep entende a importância do artesanato para o pernambucano”, declara.

Que o diga o artesão José Abias da Silva – ou simplesmente Abias –, de 52 anos. Conterrâneo do Polo Automotivo Jeep, ele mora na Mata Norte de Pernambuco e conta que foi convidado pela marca para fazer o que mais gosta na vida: arte. “A Jeep me chamou para criar uma escultura em madeira como uma homenagem aos artesãos pernambucanos. Então, com minha faca e minha foice, esculpi animais como camaleão e tatu em três galhos de madeira”, conta. A peça foi instalada no centro de comunicação do Polo Automotivo Jeep. “Me senti muito valorizado”, diz Abias.

O artesão José Abias da Silva, vizinho do Polo Automotivo Jeep

É o diálogo com a natureza – gravada em galhos e troncos como o da citada escultura dos bichos – que inspira o trabalho de Abias, autoproclamado “arte no galho”. “Eu apenas dou forma à madeira. E, como eu moro no meio do mato, aproveito galhos podados ou secos, raízes que foram arrancadas, mas não derrubo nenhuma árvore para realizar meu trabalho”, ressalta, orgulhoso. Com muita criatividade e personalidade, os galhinhos vão se transformando em personagens da cultura de Pernambuco: músicos, camaleões, louva-deus, helicópteros e rodas-gigantes.

Abias conta que os animais da fauna brasileira e objetos como a roda-gigante são memórias de sua infância, época em que começou sua história com o artesanato. “Quando eu tinha uns 9 anos, eu fazia meus próprios brinquedos, pois meus pais não tinham condição financeira para comprar. Então eu transformava tudo o que encontrava: latas, tronco de coqueiro caído e palha de coco”, lembra.

Galhos secos transformados em arte pelas mãos de Abias

Mas foi só quando tinha pouco mais de 25 anos que, trabalhando como garçom em um restaurante da cidade onde mora, Abias aproveitou o espaço do amigo e também artesão Roberto Vital para expor algumas peças autorais. “Eu lembro que Roberto foi chamado para apresentar seu trabalho na Fenearte e eu ficava me perguntando quando eu conseguiria ir”, recorda. Foi quando, em 2004, Abias foi chamado, pela primeira vez, para participar da feira, por meio da Prefeitura de Igarassu. A partir dali, ele deixou para trás o emprego de garçom e passou a viver da arte.

“Costumo dizer que a Fenearte foi a porta de entrada para o reconhecimento do meu trabalho e para meu sustento”, diz, calculando que cerca de 95% dos seus clientes, locais e nacionais, foram conquistados por meio da divulgação realizada na feira. “Hoje, o artesanato é tudo para mim, pois ele mudou minha vida. Antes, eu trabalhava para os outros. Agora, trabalho para mim mesmo e, de galho em galho, consegui fazer minha casa e, hoje, ajudo minha família. Eu acho que as coisas dão certo quando a gente gosta de fazer. E eu gosto muito do que eu faço”, afirma.


Texto: Isabela Alves

Fotos: Divulgação

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