Sign In

A fotografia como reflexão de duas culturas


Um canadense fotografando o Brasil; um brasileiro, clicando o Canadá. A exposição “Olhares cruzados” reflete sobre as semelhanças e diferenças entre os dois países

01 de abril de 2019 - Você já imaginou como um estrangeiro olha para as paisagens com as quais você se acostumou desde que nasceu? Qual o estranhamento e o deslumbramento causados por imagens que para nós parecem tão naturais e afetivas? Quais as semelhanças entre duas culturas aparentemente distantes? É exatamente essa a proposta da série de fotografias que integram a exposição “Olhares Cruzados Brasil-Canadá” aberta no dia 21 de março na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, Brasil.

A mostra, idealizada pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) e que faz parte da programação da 5ª edição da Festa da Francofonia, conta com 15 imagens de Ottawa, capital do Canadá, capturadas pelo fotógrafo brasileiro Kazuo Okubo, e 15 feitas pelo fotógrafo canadense Daniel Stanford, das paisagens urbanas de Brasília, capital do Brasil. Sendo Okubo natural de Brasília e Stanford de Ottawa, a dupla trocou de país e de cidade em busca de cruzar olhares e perceber o novo naquilo que é o cotidiano do outro. A obra apresenta os contrastes, mas também as similaridades entre cores, cenários e construções de duas capitais separadas por mais de 7 mil km, 15 horas de voo e um oceano.

Daniel já conhece o Brasil há 12 anos e, em mais de uma visita, já conheceu o Rio de Janeiro, Manaus e os Lençóis Maranhenses, o que gerou a série de fotografias “Brazil Sea of Dunes”, transformada em livro. Brasília, no entanto, foi uma novidade. “Sempre foi um sonho conhecer”, revela, emendando que não ficou desapontado: “a estética é tão artística, bela, original e limpa”.

Kazuo nunca havia visitado o Canadá, mas a experiência cativou. “Senti muita vontade de conhecer mais o país, me aproximar dessa cultura”, conta o brasileiro. “Percebi em Ottawa a presença do contraste entre a grandiosidade do clássico e do moderno”, diz o fotógrafo, usando como exemplo o Palácio do Parlamento, assim como grandes torres de vidro no centro da cidade. E qual o maior desafio que a cidade impôs a Kazuo? O frio. “Peguei temperaturas de -5 ºC com sensação térmica de -9 ºC”, lembra. Mas os dias gelados proporcionaram uma grata surpresa ao brasileiro: “Como nunca tinha visto neve, foi uma visão marcante pra mim”.


Daniel, acostumado com os termômetros marcando baixas temperaturas, encontrou na luz solar direta, que muitas vezes desafia os fotógrafos, uma aliada. Amante de iluminação natural, ele destaca que Brasília foi concebida privilegiando esse elemento. “Eu me senti sortudo pelo bom tempo, dias claros com movimentos proporcionados por nuvens e chuva vespertina, que me deram o dramático azul profundo e o céu escuro que vemos na minha fotografia”, diz o canadense. Ele conta que não fez nenhuma alteração nas imagens: só teve que esperar a hora certa do dia, com a luz do sol mais brilhante, para fazer seus cliques de contraste vibrante.

Sobre o que difere as duas capitais, o brasileiro Okubo cita a arquitetura clássica de boa parte da cidade de Ottawa — em contraposição às linhas modernistas que predominam em Brasília — e o clima. “Uma semelhança é a de ver poucas pessoas andando na rua, tirando os horários de pico”, destaca. No caso do Canadá, isso se dá pelo frio hostil. Já no de Brasília, o vazio de pessoas nas largas avenidas faz parte da própria essência da cidade e os carros surgem como personagens na paisagem urbana. Sobre a experiência dos olhares cruzados, ele arrisca uma síntese e destaca que mesmo nas diferenças há aproximação e acolhimento: “São registros de dois estrangeiros, são olhares daquilo que impressiona ao chegar em uma cidade nova, ao se deparar com um clima totalmente diferente e pessoas diferentes. Mas ao mesmo tempo me identifiquei, percebi Brasília em Ottawa”.


Fernão Silveira, presidente da Casa Fiat de Cultura, considera que são muitos os méritos de uma troca como essa. Ele acredita que as fotografias, ao registrarem paisagens urbanas das duas capitais, permitem uma reflexão sobre elementos presentes nas imagens.

“A partir daí, somadas ao imaginário de cada pessoa, podem estimular novos olhares acerca dessas culturas, dess,/pes lugares, comportamentos, climas e hábitos de vida”, afirma.

Para Silveira, a fotografia é a uma forma de expressão que desperta interesse no público pela maneira como se manifesta na vida cotidiana. “É uma linguagem que tem redescoberto sua potência e, por isso, provoca todos os públicos”, conta, destacando os jovens, “já inseridos em uma realidade na qual o mundo é visto, postado e experimentado por meio das lentes”. Para quem está em Belo Horizonte e região, a exposição “Olhares Cruzados Brasil-Canadá na Casa Fiat de Cultura” vai até o dia 19 de maio e tem entrada gratuita, como toda a programação. É só chegar na Praça da Liberdade, nº 10, bairro Funcionários, de terça a sexta, das 10h às 21h; e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h.


Texto: Bárbara Caldeira

Fotos: Daniel Stanford / Kazuo Okubo