Fiat 147 na exposição Percorsi Italiani

Um caminho afetivo que une Itália, Brasil e Argentina


Exposição “Percorsi Italiani: 120 anos de história na Casa Fiat de Cultura” resgata os fluxos migratórios da comunidade italiana nos dois países sul-americanos e sua riqueza social e histórica

18 de dezembro de 2019 - Imagine você se mudando para um país desconhecido, sem dominar o idioma que vai fazer parte do seu novo cotidiano, separado dos familiares ou junto de sua família numerosa, sem saber o que esperar do destino? Isso descreve o que é a imigração pela qual vários povos passaram e ainda passam atualmente e envolve dor, saudade, sonhos e esperança. A Itália viu grande parte de seus filhos deixar o país europeu em massa para tentar uma nova vida em outras nações, seja por conta da falta de oportunidades no período após sua unificação, em 1871, seja nos contextos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945, respectivamente). A exposição “Percorsi Italiani: 120 anos de história na Casa Fiat de Cultura”, em cartaz de 26 de novembro de 2019 a 1º de março de 2020, em Belo Horizonte (MG, Brasil) com entrada gratuita, reúne um acervo com mais de cem imagens, além de objetos e vídeos, para rememorar os caminhos percorridos pelos imigrantes italianos na América do Sul, especificamente no Brasil e na Argentina desde 1899, ano da fundação, na Itália, da Fabbrica Italiana Automobili Torino. Para alguns, um arrivederci (adeus, em português) definitivo, com nuova vita (vida nova) em outro continente.

A mostra é uma viagem no tempo. Cada passo é um mergulho mais profundo em um passado distante, mas ainda presente. Logo na entrada, o painel dos estivadores, com imigrantes italianos segurando pesadas sacas de café empilhadas nos ombros que lhes conferiam o dobro de altura, dá o tom da vida que os estrangeiros iniciariam em solo sul-americano, marcado pela expectativa por dias melhores e pelo recomeço - o que os povos africanos escravizados não experimentaram -, mas também cheio de percalços. Era nos portos de Santos (São Paulo, Brasil) e de Buenos Aires (Argentina) que os italianos encontravam terra firme para se reconstruírem. “O fio condutor da exposição são os caminhos que milhares de imigrantes italianos percorreram da Europa para a América do Sul para ‘fazer a América’, como se dizia antes”, sintetiza Fernão Silveira, presidente da Casa Fiat de Cultura. “Tomamos a liberdade de usar um termo italiano – ‘Percorsi Italiani’ – para descrever esse percurso repleto de idas e vindas que nos fazem reviver a mistura das culturas brasileira, argentina e italiana e as muitas paixões comuns que nós temos – como a arte, a culinária, o futebol e automóveis”, acrescenta, lembrando que a Fiat faz parte dessa história em seus 120 anos de trajetória.

Estivadores italianos no BrasilFoto que deu origem ao painel dos estivadores da exposição Percorsi Italiani: imigrantes italianos no Porto de Santos (São Paulo, Brasil)

“Foi um grande desafio, diante de um universo gigantesco de imagens, selecionar aquelas que se complementavam e que juntas poderiam contar uma história capaz de gerar esse vínculo emocional”, comenta a jornalista e historiadora Cinthia Reis, curadora da exposição. Empatia é palavra-chave para a experiência em Percorsi Italiani, já que o visitante, descendente de italianos ou não, é convocado a se colocar no lugar daquelas pessoas em suas travessias e a refletir sobre como todo o percurso se relaciona com a construção das identidades dos dois países da América do Sul, além das suas próprias personalidades – afinal, a influência italiana está aí, nas cidades, no design, nas artes, nos costumes. “A gente propõe um reconhecimento a partir de questões básicas, como família, culinária, vida cotidiana”, explica Cinthia. “Quem gosta de carros vai se sentir contemplado, assim como quem gosta de massa, já que temos um vídeo que mostra o processo de produção e objetos usados nas padarias de imigrantes. Há estímulos de som, de imagens e até mesmo do cheiro, com as sacas de café”, emenda.

Uma das atividades da mostra para grupos agendados convida para a construção coletiva de uma árvore genealógica da italianidade em Minas Gerais, estado que a Fiat escolheu para fincar raízes no Brasil e que é o berço, também, do Palestra Italia (hoje Cruzeiro), time de futebol fundado por imigrantes italianos (há uma bola do clube, da década de 1920, na exposição). A relação do estado com a imigração italiana é antiga: o livro de registro da entrada de imigrantes em uma hospedaria em Juiz de Fora, interior do estado, de 1897, é uma peça histórica que permite ver, em meio a uma caligrafia bordada, como as famílias italianas eram numerosas, de qual parte da Itália saíam e qual o destino no novo país. As hospedarias eram uma espécie de ponto de apoio para a chegada dos estrangeiros antes que eles fossem encaminhados para as atividades, principalmente nas lavouras de café.

Dali a duas décadas, na Argentina, a Fiat Turim se instalou em 1919 como sucursal, enquanto a Itália lidava com o fim da Primeira Guerra Mundial e com a proximidade da ascensão do fascismo. Seis anos depois, uma nova sucursal foi inaugurada. Ali, a empresa se especializou em venda e assistência técnica de caminhões e carros vindos do país europeu e, só depois, passou a produzir automóveis. Mais tarde, depois da Segunda Guerra Mundial, a Argentina recebe mais uma expressiva massa de imigrantes italianos: cerca de 300 mil, enquanto, para o Brasil, 15 mil se dirigiram. Toda essa história é contada por uma linha do tempo com imagens de acervos do Museu da Imigração (Arquivo Público de São Paulo), do Museu Histórico Abílio Barreto, do Arquivo Público Mineiro, do Centro Storico FIAT e da FCA Group Argentina.

Segunda sucursal Fiat na ArgentinaA fachada da segunda sucursal Fiat Turim em Buenos Aires, Argentina

A exposição traz outros atrativos, como réplicas dos aeromodelos Republic P-47 Thunderbolt, conhecido como “Jug”, e Vought F4U Corsair, que representam a atuação da Fiat na indústria de aviões. Isso mesmo: no início dos trabalhos na Europa, a fábrica produzia não só carros, mas também itens como motores para navio, e passou a desenvolver, nos anos seguintes, motores para submarinos, aviões e, até mesmo, aeronaves completas. Um exemplar histórico do Fiat 147, o primeiro modelo da marca fabricado no Brasil, em 1976, e o primeiro automóvel do mundo movido a etanol a ser produzido em série, também compõe as galerias.


Umberto Cerri e Giuseppe Di Gioia: histórias que entrelaçam Itália, Brasil e Fiat

A história de dois imigrantes italianos que vieram para o Brasil nas décadas de 1950 e 1970 se mistura com a própria história da Fiat: Umberto Cerri, fotógrafo industrial que atravessou o oceano para escapar do serviço militar depois de ter sofrido com a Segunda Guerra Mundial na infância, e Giuseppe Di Gioia, que trabalhava na Fiat italiana e aportou em solo brasileiro junto com a empresa, que se instalava no país sul-americano. Os dois se apaixonaram pelo Brasil, por brasileiras e criaram, na nova terra, suas famílias.

Umberto nasceu em 1933, em Pisa, último filho de uma família de seis. Quando os conflitos entre os Aliados e os países do Eixo (entre os quais figurava a Itália) começou, Cerri tinha apenas seis anos. Mas, quando a guerra oficialmente acabou, em 1945, já tinha doze. A lembrança dos bombardeios ainda é viva. “Não tinha comida, a gente dormia em abrigos antiaéreos”, recorda. Uma de suas memórias mais fortes é a de estar no cano da bicicleta do irmão mais velho deixando para trás uma Pisa em chamas para percorrer caminho até Milão, sempre fugindo da frente de batalha. O primogênito de sua mãe, Ezelina, ficou desaparecido quando a Itália assinou subitamente o armistício com os Aliados. Quando, no final do confronto, a família se reuniu inteira na casa queimada em Pisa, a matriarca Cerri, que desenvolveu problemas de coração, não resistiu. “A emoção foi muito forte, foi uma tragédia. Ela morreu aos 52 anos”, conta Umberto.

Fernão Silveira, Umberto Cerri e Alessandro CerriO presidente da Casa Fiat de Cultura, Fernão Silveira, com fotógrafo italiano Umberto Cerri e seu filho, Alessandro

A Itália pós-guerra estava marcada pelo desemprego, mas Umberto dava um jeito. Quando, porém, chegou sua vez de ingressar para o serviço militar, ele decidiu que era hora de deixar o país. “Vivendo o que vivi, jurei para mim mesmo que nunca vestiria uma farda nem seguraria uma arma”, diz, resoluto. Foi assim que, em 1954, aos 21 anos, Umberto desembarcou do transatlântico Provence no Rio de Janeiro, sem dinheiro e sem estrutura, e começou a se virar como podia. Foi em São Paulo que ele teve a oportunidade de trabalhar com fotografia – ofício herdado do pai, Guido Cerri, que foi fotógrafo da Casa Real Italiana. Não demorou muito para que Umberto fizesse suas primeiras fotos para a Fiat, que chegava ao Brasil em 1973, e se instalasse de vez em Minas Gerais.

Várias imagens de autoria dele compõem a exposição. Ele recorda, saudoso, do tempo em que levava os carros da marca a belos cenários reais para seus cliques analógicos. Até hoje o estúdio fundado por ele, que carrega seu sobrenome e é comandado por seu filho Alessandro, é parceiro da montadora italiana. Umberto teve ainda quatro filhas – “Eu me casei três vezes com brasileiras!”, conta, divertindo-se – e fala com orgulho das três netas. A última viagem que fez à sua terra natal foi em 2018, para reencontrar suas duas irmãs. Foi a última vez: elas morreram poucos meses depois da visita. “A imigração é muito dolorida e a exposição mostra isso de forma emocionante. É muito triste deixar sua terra, sua família, quem você ama”, desabafa. Para manter os hábitos de seu país de origem, ele não abre mão de cozinhar uma boa massa, especialmente agora, que está aposentado. Ele gosta mesmo é de um dia a dia agitado, o que parece ser comum entre os italianos, tanto que nosso próximo personagem também carregava esses traços.

Carteira de motorista de Giuseppe di GioiaA carteira de motorista de Giuseppe, guardada por anos por sua esposa, Eny, e agora parte da exposição

A história de Giuseppe é contada pela sua esposa, Eny, e as duas filhas, Bianca e Bruna, já que ele morreu no ano passado – e por isso a presença de sua carteira de motorista na exposição Percorsi Italiani é percebida como uma homenagem emocionante pela família Di Gioia. Peppe, como era chamado, nasceu em Foggia, na região da Puglia e, assim como Umberto, viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial. Em 1975, ele chegou ao Brasil com um grupo de dirigentes da Fiat que vinha da Itália para trabalhar na nova fábrica. “Nos conhecemos em um restaurante italiano com comida bem tradicional perto de onde eu trabalhava”, conta, com carinho, Eny. O amor que nascia naquele momento resistiu à breve volta de Giuseppe para a Itália e vinda definitiva para o Brasil em 1976. O casal criou as filhas na infância falando português, mas sempre conectadas com a cultura italiana, pela culinária, histórias e dramaticidade das óperas. Mais tarde, as duas estudaram o idioma, no qual Eny também consegue se comunicar bem. “Eu fui descobrir que meu pai era de outro país e entender o que era isso quando tinha onze anos. Antes, eu achava que ele só falava meio diferente”, brinca Bianca, a mais velha, que hoje é coordenadora do Gruppo Dirigenti Fiat no Brasil, associação nascida na Itália em 1974 e que reúne dirigentes e ex-dirigentes da empresa.

Família Di Gioia nos anos 1990A família que Giuseppe ganhou no Brasil: a esposa, Eny, e as filhas Bianca (de blusa branca) e Bruna (blusa preta), em confraternização da Teksid na década de 1990

A massa sempre fez parte da rotina da família Di Gioia e Eny, nascida no interior de Minas Gerais e acostumada à culinária típica da região, não teve problemas em incorporar os pratos em meio a pão de queijo e tutu de feijão. Uma paixão comum aos italianos, brasileiros e argentinos, que é o futebol, também atravessou o oceano com Peppe. “Aqui no Brasil, meu pai torcia pelo Cruzeiro, antigo Palestra Italia. Da Europa, o time de coração era o Juventus”, lembra Bianca. Pode-se dizer que o coração de Peppe batia 50% dedicado a cada time, assim como a cada país, Brasil e Itália. O equilíbrio não para por aí: “Quando meu marido faleceu, aos 86 anos, me dei conta de que ele tinha vivido exatos 43 anos na Itália e 43 no Brasil”, lembra Eny.

Bruna, a filha mais nova, garante que o pai era o mais brasileiro da casa. Designer, ela credita boa parte da influência na escolha da profissão à arte italiana, já que Giuseppe recebia muitos compatriotas em casa e a família viajava com frequência para a terra natal do imigrante, onde seu filho mais velho, Fabio, do primeiro casamento, mora com sua esposa e dois filhos. “Meu pai foi piloto de teste na Itália e falava, com orgulho, das voltas que já deu na pista da fábrica de Lingotto”, lembra Bruna. Ela se refere à unidade da Fiat em Turim fundada em 1923 e conhecida por abrigar, de maneira vanguardista, a pista de testes em seu telhado – há fotos aéras na exposição. Emocionada, ela diz que o pai, que trabalhou na Teksid, parceira do grupo Fiat, entre 1984 e 2008, falava com muita alegria da empresa, com a qual esteve ligado durante toda a vida. Ela ainda lembra do jeito expansivo e sincero de Giuseppe e de como um ensinamento italiano é não reprimir as emoções. “Sentimos muita saudade”, finaliza, com essa palavra em português que não tem tradução para outras línguas, mas cuja sensação independe de tempo e nacionalidade.

Confira o vídeo que preparamos sobre a exposição Percorsi Italiani: 120 anos de história na Casa Fiat de Cultura:


Texto: Bárbara Caldeira

Fotos: Divulgação FCA / Arquivo Público do Estado de São Paulo / Arquivo familiar Di Gioia

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