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"Todo mundo queria que o carro a álcool desse certo"


Há 40 anos o primeiro carro a etanol do mundo chegava às ruas do Brasil e era muito bem recebido pelos formadores de opinião

26 de julho de 2019 - Como não poderia deixar de ser, o lançamento do Fiat 147 a etanol teve grande repercussão na imprensa especializada. Afinal, o primeiro carro produzido pela marca italiana no Brasil levou o país ao centro das atenções no mundo inteiro por, há exatos 40 anos, ser o primeiro carro fabricado em série com motor a etanol. “Havia uma uma grande expectativa em torno dele, pois era um veículo movido por um combustível que não dependia do petróleo”, conta o jornalista Emilio Camanzi, à época editor-executivo da revista Quatro Rodas. “Todos queríamos muito que funcionasse.”

“Quando recebemos o carro para teste na redação, todos o rodearam repletos de curiosidade: ‘como será que anda?’, ‘e a partida a frio pela manhã?’, ‘será que o motor vai ser confiável?’... queríamos as respostas.” Após o primeiro contato com o hatch, Camanzi lembra que duas características chamaram a atenção dos jornalistas. “O desempenho do motor 1.3 a álcool era muito bom, mas o consumo era alto. O baixo preço do etanol comparado ao da gasolina amenizava esse ponto negativo, mas ainda assim a autonomia do 147 a álcool era baixa”.

Jornalista e engenheiro, Boris Feldman trabalhava no Jornal de Casa, do Diário do Comércio de Belo Horizonte, quando o Fiat 147 etanol foi lançado. “Foi muito curioso o lançamento do pioneiro, pois a tecnologia ainda era rudimentar. O pessoal de engenharia e de imprensa da Fiat não conseguia esconder o nervosismo porque o consumo do álcool era alto. Mas isso não dava para perceber num test-drive daquela época. O problema realmente era a dificuldade do motor pegar em dias mais frios, com a temperatura abaixo de uns 15ºC”.

Mesmo após 40 anos, Feldman ainda se lembra de alguns detalhes do lançamento. “Os engenheiros presentes cansaram de explicar que tinha um botãozinho no painel do carro para acionar a bombinha do tal tanquinho de gasolina”, afirma, referindo-se ao sistema que injetava no coletor de admissão uma quantidade de gasolina suficiente para dar a partida principalmente em baixas temperaturas. “Mas o lançamento foi um sucesso, os carros rodaram direitinho, sem nenhum susto”, ressalta o jornalista.

Outro veterano da imprensa automotiva brasileira, Fernando Calmon também tem boas recordações de suas reportagens com o 147 a etanol. “Eu trabalhava na revista Autoesporte em 1979. Vejo até hoje como um grande ponto positivo o fato de a Fiat ter sido o primeiro fabricante a homologar o motor a álcool, pois deu segurança aos consumidores de que as montadoras estavam dedicadas no combate à crise do petróleo”, reforça.

“Quanto ao 147 a etanol, as impressões na época foram mais positivas do que negativas. O motor andava muito bem, deixava o carro bastante ágil, mas com um maior consumo em relação ao da gasolina. Porém, compensava muito mais abastecer com álcool por causa do baixíssimo preço do combustível”, lembra Calmon.

Edição da revista Quatro Rodas da época, que testou o veículo.

O primeiro super teste do Fiat 147 a álcool

Em outubro de 1979, a revista Quatro Rodas publicou um suplemento que teve o Fiat 147 a etanol como um dos protagonistas. Intitulado “O Teste dos Motores a Álcool”, a edição marcou o primeiro teste de imprensa com o hatch em um circuito fechado e de longa duração.

Uma equipe de 181 pessoas foi mobilizada para um super teste de dois Fiat 147 e dois Volkswagen Passat a álcool. Foram 15 dias acelerando os carros ininterruptamente no antigo traçado do autódromo de Interlagos, em São Paulo, o que resultou em 112.049 quilômetros rodados. “Tivemos um trabalhão para organizar essa pauta especial, mas os resultados foram muito bons. Nosso intuito era mostrar aos leitores que o carro a álcool era confiável”, conta Emilio Camanzi, idealizador da matéria.

Ao longo da reportagem, a Quatro Rodas classificou a maratona como “o maior teste já feito pela revista”. “Foram 360 horas de trabalho com os carros rodando sem parar, dia e noite, com a supervisão da equipe técnica da revista. Lembro-me que as médias de consumo do 147 foram satisfatórias, considerando as condições do teste”, destaca o jornalista.

De acordo com a revista, o Fiat 147 que ostentava o número 2 na carroceria registrou média de 10,9 km/l de álcool, enquanto o carro de número 6 fez 10,4 km/l. Ainda conforme a publicação, o veículos resistiram bem aos 15 dias de atividade na pista e não tiveram nenhum problema grave no motor.

Ao final da matéria, foi dado o seguinte veredicto ao 147 movido a etanol: “Comprovada a confiabilidade que os motores a álcool da Fiat já oferecem, no atual estágio de desenvolvimento, resta esperar as providências para que haja álcool para todos”.


Museu da imprensa automotiva

Apaixonados por carros podem conferir as reportagens de época feitas sobre o Fiat 147 a álcool em um museu em São Paulo. No Miau (Museu da Imprensa Automotiva), criado pelo jornalista Marcos Rozen, os visitantes encontrarão até o raro material de imprensa do lançamento do 147 no Brasil, em 1976. “A máquina de escrever que foi dada aos jornalistas que cobriram o evento fica exposta aqui, junto com o release de divulgação do carro”, conta Rozen.

O espaço que preserva o acervo estimado em mais de dez mil itens – incluindo imagens, publicações, campanhas publicitárias e todo tipo de material ligado à imprensa automotiva – está aberto para visitações aos fins de semana e o ingresso custa R$ 15. Endereço e mais informações sobre o Miau estão no site www.miaumuseu.com.br.


Texto: Leandro Alvares

Fotos: Reprodução / Divulgação

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